Numa altura em que a cidade
está mais vazia e o movimento de pessoas é reduzido
em relação a outros períodos do ano de maior
mobilidade, não posso deixar de me questionar - como amante
confesso e apaixonado pelo desporto, o "da bola" - que nem
só de futebol se faz uma vida. Há toda uma conjectura
que nos mantém ocupados, desatentos, ou tão
justamente relaxados perante o passar dos dias de
verão.
Mas, de uma forma ou de outra, a verdade é que em Portugal (
para não citar os casos de Inglaterra em que já
aquec, em França ferve, na Alemanha tudo a postos e por
Espanha e Itália o lume está quase no ponto ) se
continua a consumir o futebol que nas últimas semanas tem
tido o seu desenvolvimento. Sejam amigáveis contra
desconhecidos, torneios centenários ou de nuestros hermanos,
por terras da Europa e afins, em boa medida noto que aquele que
não dispensa uma folgazinha do trabalho para dar um salto
até à praia, é o mesmo que acaba por se sentar
à hora de jantar em frente ao televisor, desdobrando-se em
olhares e análises sobre os jogos de temperatura amena que a
passividade de Agosto coloca à mesa.
Ora, é então
sobre este facto que gostava de deixar aqui duas notas:
Uma entrevista dada por Danny ( jogador do Dínamo de Moscovo
) e uma crónica de João Lopes ( crítico ) que
li no mesmo jornal.
De um lado o choque de um jogador português nos primeiros
tempos em solo de czares. Do outro, a face esquecida ( e não
menos bela ) que o futebol encorpora na sua
mediatização - as imagens.
Quero dizer, emocionou-me a forma como o antigo extremo do Sporting
contou a sua história. Breve e preciso ao mesmo tempo. Em
três anos de imigração, Danny conseguiu
alcançar o estatuto de vedeta nesse Dìnam(ite) em que
tantos passaram sem êxito e sob as próprias sombras.
Casos de Derlei, Costinha, Maniche - hoje bem mais conscientes de
que o dinheiro não é tudo, certamente. Talvez, como
se a humildade lhes tivesse segredado ao ouvido que quem muito quer
tudo perde. E é hoje, meritoriamente considerado o jogador
mais importante do campeonato russo, esse cubo de gelo que anda
para lá e para cá, intermitente e à margem das
grande elites mundiais. Este míudo ( tem 24 anos! ) aterrou
de malas e bagagens, mulher e filhos gémeos ao colo, e sem
falsas pretensões tentou adaptar-se à nova realidade,
a língua, os costumes, o ambiente bem diferente aqui do
Zé povinho, e é certo que nos primeiros dois anos
quase estagnou. Quase quis abandonar tudo. Mas não, a vida
(ela outra vez! ) ensinou-he uma lição que tão
nobremente evocou no meio das suas palavras: " O futebol não
são sõ contratos milonários (...) e se ainda
aqui estou é porque não fui como outros, que se foram
embora porque realmente não precisavam". A isto, só
consigo aliar o expressão: grande jogada e golo
espectacular. Pois, quando se tem pessoas que dependem de
nós, e quando o futuro de quem gostamos está
intimamente relacionado com aquilo que fazemos profissionalmente,
melhor é aceitar que só se sobe um degrau de cada
vez, afim de evitar quedas repentinas, e por vezes sem retorno.
Força e muita sorte, para ele. è o meu desejo.
Quanto à outra nota que referi, apenas o meu aplauso e
admiração. Bom que foi, de ver, momentos antes das
grandes penalidades, Petr Cech ( o guarda - redes do Chelsea )
retirar o capacete que há largos meses o protege depois de
tamanha infelicidade ( quase fatal em 16 de Outubro de 2006 )
sofrida e suspeita de ser um trágico fim de carreira, e de
olhos fechados em direccção ao céu, respirar
deitado sobre a relva de Wembley repleto, preparando-se para a
decisão do primeiro troféu entre os dois colossos da
Premiership. Pode até o resutado ter desagradado os blues na
lotaria indesejada, mas acima de tudo, fica-me na retina a grande
defesa que o jovem checo fez pela sua sobrevivência.
Aí, a grande defesa e a maior de todos os tempos, para mim,
será a dele.
Para concluir - e isto enquanto o termómetro atinge o seu
pico - só me resta desejar uma continuação de
boas férias a quem assim se encontrar. Espero voltar para a
semana com mais alguma coisa para dizer, enquanto isso, regozijo-me
perante o meu metro e setenta e dois centímetros de altura
ao beber destes dois exemplos, que a vida é muito mais
futebol.
Apesar de que com ele, sabe igualmente bem.
PS - à Irmandade, a esperança de que em Setembro e no
regresso da pausa competitiva, possamos todos contribui para o que
nos é semelhante: O espírito vencedor que há
em cada um de nós, dentro e fora de campo, pelo jogo e pelas
nossas vidas. Grande abraço,
até breve.