Na Antiguidade, de Pitágoras a Platão - nessa Grécia já desaparecida - surgia uma regra, antes uma forma de beleza incompreensível denominada de ouro. Ainda, o número de ouro, o rectângulo homónimo e a espiral do mesmo nome. À partida, «a razão de ouro e o rectângulo de ouro potenciavam o valor estético dos monumentos e das esculturas» pelo qual se seguiram outras formas demonstrativas da sua existência: matemática, arquitectura, pensamento linear entre outras. Ora, é aqui que começa realmente o fundamento desta crónica. E a sua consequente relação com o futebol.
Um campo de futebol, rectangular por sinal, concentra em si todo um compêndio de situações e revelações - por vezes bem além do entendimento humano. Seja ele sensível ou inteligível, se aí sim também quisermos incluir a filosofia não apenas do jogo mas inerente e intrínseca a ele.
Por exemplo: os quatro princípios fundamentais do
desporto são: 1. A fidelidade e respeito pelas suas regras,
numa atitude madura e racional de obediência livre; 2.
Subordinação do individual ao colectivo em jogos de
grupo, exigindo simultaneamente aos seus praticantes a
máxima responsabilidade; 3. Uma atitude face ao outro com
base em vínculos de laços morais, porque «o
outro é um colaborador e um adversário»; - e
por fim - 4. O desporto exige um esforço de constante e
rigoroso aperfeiçoamento físico e muscular como base
de aperfeiçoamento da mente, uma vez que a ginástica
do corpo deve ser sempre acompanhada da ginástica do
intelecto. Nesta lógica, conciliando cada uma das fases e
qualquer jogo de futebol poderia ser perfeito, ou pelo menos, mais
próximo estaria da sua real designação. Dito
isto - pensado, e recordo as primeiras três jornadas da nossa
Irmandade na 4ª Superliga Masterfoot, aos Domingos.
Primeiro jogo: Uma estreia com uma derrota. Um começo
aquém do que havíamos realizado, pesa embora em
certos momentos tenha a nítida sensação de que
se não fosse a dilatação do resultado - fruto
duma maior eficácia ofensiva do adversário - e
poder-se-ia dizer que certos papéis se inverteram e
aí, uma certa confusão se gerou entre a dicotomia
equipa favorita versus equipa recém chegada e na expectativa
de uma surpresa.
Segundo jogo: Após a absorção da primeira
entrada em cena - com um pé dentro e outro fora, ambos
tremidos - uma amostra do valor colectivo enquanto equipa. Os
moldes da partida eram claros e desde cedo se percebeu como os
dados tinham sido lançados. Dois vencidos em busca da sua
primeira vitória. Duas equipas tão diferentes e com
futebóis equidistantes, que se encaixaram passado alguns
minutos de reconhecimento. E em que os grandes destaques foram
individuais. De um lado um avançado móvel e uma
defesa compacta, do outro - o nosso refiro - um guarda redes
hábil e generoso e um meio campo esforçado e
trabalhoso. Nesta conjectura seria difícil prever grandes
desníveis no resultado. Grandes fossos entre uma e outra
realidade. Regra de ouro: quem não marca sofre, ou
arrisca-se a, e muito esprimido o cansaço global e um golo
que acontece ao cair do pano, para infortúnio e infelicidade
de nós irmãos - apenas encorajados pela melhoria
substancial em termos de rendimento, em relação ao
jogo anterior.
Terceiro jogo: Velhos conhecidos da época anterior.
Irmandade a campeã em título da divisão
secundária versus uma equipa que havia conseguido um
lugar no pódio, consequência de uma
prestação coerente e de certo modo poderosa quando
assim se lhe exigiu. O primeiro pensamento era de vitória,
oxalá as pernas pensassem o mesmo. Um jogo na sua maioria
bem disputado, de parte a parte, mas em que nesta espiral dourada -
que é o futebol tanto na sua história como na sua
imprevisibilidade - permitiu-nos à terceira compensar erros
e esquecimentos patentes nos outros desafios. Houve eficácia
suficiente para que não houvessem dúvidas, houve uma
entrega quase estética desde o início que permitiu
encararmos cada minuto seguinte como um passo em frente em
relação ao instante antes; houve
transpiração e talento, revelações de
como o potencial não reside apenas num pé esquerdo ou
direito, mas igualmente importante, na visão de olhos
abertos em toda a sua latitude. E longitude. Sem retirar o
mérito do adversário (diga-se que foi de facto um
jogo muito interessante) é inequívoca a palestra
desportiva que a nossa Irmandade foi capaz de relativizar e
mostrar. Ganhámos 4 - 2.
É para mim, nos pequenos pormenores que se revê toda e
qualquer magia que a invisibilidade do jogo teima em esconder. Seja
com a dureza de um lance ou com as picardias de quem pensa competir
ao mais alto nível. E neste contexto, como explicar o que um
sorriso de uma equipa feliz pode querer transmitir?
Tudo. A disponibilidade dos que ganham em matéria
táctica à técnica. Dos que pensam melhor a
corrida da bola mas sem ela, dos que estão no sítio
certo na hora apropriada, ou até dos que invisíveis,
são autênticas bases de uma conjectura que se completa
e complementa.
Nada mais a acrescentar. Era disto que vos queria falar. Um alongamento do que sucede sempre que somos convocados a permanecer. No fundo, a imagem dispensa a sua justificação.
Um forte abraço,
T. Poeta



